31 de agosto de 2011

Sob a Rua dos Flamejantes - VII


Ela levou um susto. Quando achou que tudo estava bem, ele a desligou de forma tao brusca da sua vida. Era, enfim, o fim. Riu de sí mesma um instante. Sempre se enganava quando achava que tudo estava bem.
Não restava mais nada. Mas apesar de tudo, apesar da afeição que tinha voltado a sentir por ele, ela não lamentou o corte da relação dos dois. E, como poucas vezes antes, ela não estava triste porque alguma coisa tinha acabado. Também não estava festejando. Ela uma sensação de alívio - tudo estava resolvido - co misturado à uma resignação calma. Simplesmente o vento tinha soprado, e levado pra longe folhas que já haviam caído secas no chão ha muito, muito tempo.

Foi quando isso aconteceu que ela percebeu que já tinha virado a pagina. O tempo tinha passado e curado os pequenos machucados que se fizeram quando o amor acabou. Mais precisamente, foi quando se deu conta de que o amor nunca tinha de fato existido. O que acontecera entre eles, ou melhor, com ela, fora o desejo do amor. A fantasia de encontrar alguem e viver com ela uma vida - breve ou não - mas que fosse de verdade. Um vida com alguem que pudesse contar, que pudesse ser ela mesma, com quem pudesse ir do riso ao choro sem ter que explicar. Entao ele apareceu, como alguem que faz um pequeno canal na margem de um rio com um pedaçinho de galho. E ela, aguá, de deixou levar. 

Como nada na vida impede os enganos, foi exatamente disso que ela se deu conta depois. Muitas vezes começamos uma viagem com alguem - ou convidamos alguem para viajar conosco - e não chegamos a destino nenhum. Algumas vezes nós desembarcamos - ou pulamos pela janela, dependendo do desespero - em algum lugar não planejado e aí temos que empreender a viagem de volta ao ponto de partida. Essa viagem nunca é facil, e pode ocorrer de, quando chegarmos, tudo estar tão diferente e mudado, que temos a impressão de nunca termos de fato, voltado. 

Outras vezes, a pessoa com quem viajavamos nos deixa. Sentimo-nos sozinhos, à deriva, esperando que o trem descarrilhe a qualquer momento. E ai podemos tambem voltar ( e nunca voltar de fato) , mas geralmente continuamos a viagem, que, embora nao sabemos onde, acaba sempre dando em algum lugar. 

São essas viagens que começamos sem pensar, no impulso de um momento, na procura desesperada por algo novo, pra escapar de alguma coisa. E estamos tão imersos em nossos desesperos que não percebemos que o outro tem motivos bem diferentes dos nossos pra fazer a mesma viagem...

Tão ruim quando percebemos isso,  é quando  percebemos que se perdeu parte da bagagem. Justamente aquela mala com aquela peça de roupa que mais gostava. Justamente aquela com a sua maquina cheia de fotos. Justamente aquela onde estavam os  sonhos, as esperanças, o amor, a fé....

E entao precisamos recomeçar a vida num lugar novo, a partir de novas bases. Talvez seja fácil, talvez não. Quando ele fechou as portas da sua vida, ela percebeu que neste caso, seria fácil. Talvez, porque as novas bases ja tinham sido construidas sem ela perceber. É  incrível, mas as vezes, isso acontece.

1 comentários:

Thaís Alves disse...

Isso de fato acontece, relacionamentos terminam e não dói, porque o amor já não estava ali ou nunca esteve. E a mente já está preparada e até mesmo ansiosa pelo fim necessário para que se possa fazer novas viagens. Beijos!